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nov
20

Annapurna Circuit: 900 mts de superação!!!

Depois de dois dias em Kathmandú e já tendo contratado o trekking com a mesma agência que é dona do hotel que eu estava, parti no dia 12/10 para o trekking do Annapurna Circuit (http://wikitravel.org/en/Annapurna_Circuit#b), que está entre os melhores trekkings do mundo.

Saímos bem cedo, para pegar o ônibus até uma cidade onde o trekking inicia (Besisahar) e de lá começar a caminhada de 21 dias.

Ao longo do caminho a paisagem vai mudando, as pessoas e suas vestimentas, as casas e a cada dia os músculos vão se acostumando e ao mesmo tempo ficando exaustos, pois em certos trechos, o caminho é só subida e eu carregava uma mochila com todo o equipamento fotográfico, não muito, cerca de 10 kg, mas que no final se transformariam em 20, 30kg!!!

O vilarejo que achei mais bonito ao longo de todo o percurso foi Tal, pois fica entre o rio e a montanha e o lugar parece que te acolhe, neste ponto estávamos a uns 1700 mts.

Uma coisa muito legal do trekking é que as pessoas vão se encontrando nas mesmas cidades e parece que vai se formando uma “família” de trekkers e aos pouco você vai escutando e conhecendo a história de cada um. Os que mais se aventuram por estas bandas do Nepal, são os franceses, seguindos dos alemães, australianos e israelenses, do Brasil somente 32 pessoas passaram por aqui no ano passado e até o momento que eu estava lá (2011), somente 15.

Em Manang foi a primeira cidade onde paramos para fazer aclimatização, passamos dois dias, cerca de 3.600 mts, só para terem uma idéia o Pico da Neblina, que é o maior pico do Brasil, tem cerca de 3.000 mts. Um dos objetivos nesta cidade é preparar/ acostumar seu corpo a altitude, a baixa pressão parcial do O2 e também ao que eles chamam de acute mountain sickness (AMS), onde os principais sintomas são: dor de cabeça, enjoo, fadiga, respiração ofegante, tontura, falta de apetite e pode ocasionar a morte.

Este é um dos pontos cruciais para quem quer fazer a travessia dos (5416 mts), pois se não estiver se sentindo bem, não tem jeito, vai ter que voltar para altitudes menores, neste ponto do trekking eu já tinha visto algumas pessoas voltando e por umas 4 ou 5 vezes escutado o helicóptero de resgate, pois quando alguém está muito mal, eles acionam o seguro e chamam um helicóptero.

Eu estava me sentindo bem, uma leve dor de cabeça, que depois descobri que era mais de fome do que qualquer coisa, aproveitei também para checar a pressão (15/9) e os batimentos cardíacos (95/min), pois eles tem um posto médico neste ponto e também aproveitei para pegar um pouco de vaselina, para colocar no nariz, já que devido a baixa humidade, meu nariz estava sangrando

Depois de Manang, passamos uma noite em Letdar (4200 m), para mais uma noite de aclimatação. Mo caminho de Manang para Letdar, presenciei um mulher (chinesa ou japonesa,40 e poucos anos), desmaiar e ser levada as pressas de volta para Manang. Em uma das paradas que fizemos para tomar um chá (alho, gengibre, limão e mel), uma das meninas (americana) que conheci ao longo do caminho e que estava com mais outras 4 pessoas sentiu-se mal: falta de ar, dor de cabeça e fraqueza. Eles estavam um pouco (10 minutos) na minha frente e quando cheguei no local que ela estava deitada (mesa) o guia (dela) estava com a bolsa de primeiros socorros aberta, mas meio saber o que fazer. Perguntei se ele já tinha visto a pulsação dela e para minha surpresa, ainda não. Então tive que prestar algum socorro, pois a pulsação era de 75/min, os lábios estavam brancos e ela estava tremendo e começava a chorar pois o movimento do guia era de desespero e os outros do grupo não sabiam bem o que fazer. Só pedi que ela olhasse pra mim, que se concentrasse na respiração e que mantivesse uma respiração profunda e bem lenta. Ela falava: O que está acontecendo? Estou com frio!!! Disse que teríamos que descer para Manang e que ela teria que ser forte e só pensar na respiração. Coloquei-a no ombro e voltamos para Manang, com o guia.

Ainda em Letdar, o americano que dividiu o quarto comigo, também não estava bem e ficou mais um dia e uma noite, tendando melhorar, não tive notícias se ele atravessou ou não, segundo o meu guia, não.

Depois de Letdar, fomos para Thorang Phedi (4450 m), para um último dia de aclimatação e na manhã seguinte partir para a travessia dos 5416 mts. Neste dia eu não estava bem, a dor de cabeça havia aumentado e meus sintomas de alergia começaram a aparecer (depois de 6 meses), meu nariz continuava sangrando um pouco. Durante a notie não consegui dormir e tínhamos que sair as 4:00 da manhã, caso contrário pegaríamos uma condição de vento muito forte. Mais ou menos as 21:30, começou a nevar e a temperatura caiu mais ainda o que vez com que eu me sentisse pior. No quarto, além de mim e do guia, tinham mais 3 Nepaleses, que provavelmente também não conseguiram dormir por minha causa. Um deles me deu um dente de alho para mastigar e meio comprimido de Diamox.

As quatro da manhã o relógio despertou e eu havia conseguido dormir, cerca de 1:00, mas falei que não estava 100% para subir, eles disseram para irmos tomar café (chá) e comer algo. Do lado de fora a neve ainda caia e a paissagem era branca, misturada a escuridão do horário. As outras pessoas já começavam a sair em direção ao pico, com suas lanternas acesas, formando um verdadeiro caminho de luzes ao longo da montanha.

Quando voltamos para o quarto, já não havia mais ninguém no acampamento base e os 3 já se preparavam para subir, já eram 04:50 e eles não podiam esperar mais, quando decidi que iria. Achava que ainda tinha uma reserva de energia, que poderia confiar no que estava sentindo, conheço meu corpo e meus limites e tenho responsabilidade e juízo para voltar, se fosse o caso. Então avisei que também subiria com eles e em uma rápida comemoração, juntamos aos mãos e : Let’s GO!!!

Do acampamento base até o pico Thorung Pass, foram exatos 866 metros, mas foram os 886 metros mais difíceis da minha vida. Logo no começo o frio e o vento cortavam meu rosto e a sensação térmica era de menos 15 graus, meus dedos dos pés estavam formigando, não conseguia sentir os dedões, mesmo com duas meias grossas e bota, as pernas pareciam se movimentar sem coordenação, a ponta dos dedos estavam dormentes e neve ficava “presa” no bigode e na barba, o que fazia meu rosto “congelar”.

Com mais ou menos uma hora de caminhada parei e meus joelhos dobraram, achei que você cair, mas me apoiei no “cajado”que um dos Nepaleses havia me emprestado, por alguns instantes pensei em voltar, pois só tínhamos andado uns 200 metros, mas sabia que ainda aguentava mais um pouco, que poderia conseguir. Ao longo do caminho tem uns caras, que ficam com burros ou cavalos, para quem quiser subir a cavalo, um dos Nepaleses, ficava falando no meu ouvido: Is better to hide a horse, man, you didn’t sleep well. Are you ok? E eu só fazia o sinal de ok para ele e dizia que não queria pegar o cavalo e pensava comigo mesmo: Porra eu não vim até aqui para subir no lombo de um cavalo!!!

Com mais alguns metros e mais uma hora e meia, enverguei outra vez e achei que teria que pegar a merda do cavalo, já que não dava mais para voltar, neste ponto já dava para ver, entre a neve que caia o cume e mais uma vez veio aquela voz: Is better to hide a horse, man!!! Parei para respirar e tentar recuperar o pouco da força que ainda tinha. Neste ponto entreguei a câmera fotográfica para meu guia, pois estava presa a minha mochila e a sensação era de que ela pesava uns 10 kg. Meus braços mal tinham força para tirá-la do mosquetão e entregar para o guia.

Nos 50 metros finais e com quase 4 horas de caminhada, eu parei pela última vez, já exausto, sem a menor condição de andar, a vontade era de sentar ali mesmo e esperar ou então pedir para alguém me ajudar a andar, a perna já não dava o passo seguinte, na minha cabeça só vinham dois pensamentos: Na montanha eu não fico, se for para ficar, que seja no mar e na vontade de ainda ver a Katharina nascer.

Quando cheguei nos 5416 metros, não consegui pegar minha máquina para tirar uma foto, quando tirei minha mão de dentro da luva meus dedos mal se mexiam, então a única coisa que consegui fazer foi tirar esta foto com o celular, tentei gravar algo também mas o celular “travou”, parou de funcionar por conta da temperatura.

Depois que atravessamos, o meu sentimento era de conquista, de vitória e superação, por não ter desistido, por não ter pego o “maldito”cavalo, por poder conhecer um pouco mais dos meus limites físicos e emocionais, conhecer ainda mais as reações do meu corpo e fiquei imaginando como se sentem aqueles que também se submetem aos seus limites, atletas ou anônimos…

Pude também entender melhor a famosa frase dos alpinistas e montanhistas: Só o cume interessa!!!(rs)

Annapurna Circuit

 

 

 

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